Moradores da Maré enfrentaram dificuldades para votar no 1º turno depois da mudança de locais, que afetou cerca de 17 mil eleitores na área. No RJ, 72 remanejamentos em 20 municípios atingiram ~202 mil votantes.
Moradores do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, relataram dificuldades para votar no primeiro turno das eleições gerais, realizado em 4 de outubro, após mudanças nos locais de votação que afetaram cerca de 17 mil eleitores em relação ao pleito de 2024.
A alteração foi determinada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) com o objetivo de retirar seções eleitorais de áreas consideradas de alto risco ou controladas por organizações criminosas. No estado, 72 locais de votação foram modificados em 20 municípios, incluindo a capital, abrangendo cerca de 202 mil eleitores. No caso do Rio, para o primeiro turno das eleições de 2026 haverá alteração em apenas um endereço: no bairro de Brás de Pina, na zona norte (seções 123, 124, 125, 126 e 127 da 188ª zona eleitoral).
O deslocamento de pontos de votação gerou queixas de moradores que tinham rotina de votar próximo de casa. Foi o caso de Rejane Barcelos, moradora da Vila do João, que foi direcionada para uma igreja em outro bairro.
“Eu votava numa escola perto da minha casa, e aí, quando eu fui ver, que eu fui conferir, falaram que tinham tirado as zonas eleitorais lá da Vila do João, que tinha mudado lá para a Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso. Eu nunca tinha ido nessa igreja. E lá não passa ônibus perto, não passa nada perto. Ainda bem que eu tinha um dinheirinho para poder pedir um Uber.”
Levantamento com base nos boletins de urna mostrou que a abstenção nas 41 seções eleitorais da Maré que tiveram o endereço transferido chegou a cerca de 31%, acima da média nacional de aproximadamente 21%. Segundo o TRE, no domingo do primeiro turno a corte não relacionou o aumento da abstenção diretamente à mudança de local de votação.
O estudo “Como vota a Maré”, elaborado pela organização não governamental Redes da Maré, aponta que os dados não permitem estabelecer relação causal direta entre transferência de locais e abstenção, especialmente porque houve crescimento do eleitorado. Ainda assim, a ONG ressaltou a preocupação com as barreiras de acesso impostas pelos deslocamentos para fora do território.
De acordo com a pesquisa da ONG, a abstenção na Maré foi maior que em 2024 (28%). Nas contas da instituição, em quatro anos 50% dos eleitores sofreram alteração no ponto de votação. A análise enfatiza impactos sobre acessibilidade e mobilidade urbana, já que as mudanças alteram rotas de deslocamento entre residências e seções eleitorais.
Para reduzir a abstenção e orientar moradores, a Redes da Maré realiza até sexta-feira (23) a mobilização “Esquinas por Direitos”, levando diálogo sobre participação democrática às ruas e esquinas do conjunto de comunidades.
“O trabalho da Redes da Maré, nesse momento, é estar nas ruas, é trazer a dinâmica do debate sobre o voto, do debate sobre a participação e a importância da participação democrática exercendo o direito ao voto, dizendo que o nosso voto importa. Não só porque é um direito individual, mas porque é um direito individual que impacta coletivamente o território e a vida de todas nós.”
A ONG também informa pelas redes sociais que quem não votou no primeiro turno poderá votar normalmente no próximo domingo (25) e que eleitores sem biometria cadastrada poderão comparecer às seções. Moradores seguem trocando orientações sobre o direito ao voto por meio de aplicativos de mensagens.
