terça-feira, 20 de outubro de 2026

Desmatamento reduzido desde 2023 rende R$1,16 tri à economia mundial

Desmatamento reduzido desde 2023 rende R$1,16 tri à economia mundial

por R2Sites

Publicado em 20/10/2026,

às 00h00

Estudo do Ibre/FGV diz que a queda do desmatamento na Amazônia e Cerrado trouxe R$1,16 tri em benefícios ao mundo. A análise compara 2019–2022 com 2023–2026 e estima até R$192 bi em danos evitados ao Brasil.

A queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 2023 pode ter gerado ganhos de cerca de R$ 1,16 trilhão para a economia mundial, segundo estudo divulgado esta semana pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas. Do total, até R$ 192 bilhões corresponderiam a danos climáticos evitados para a própria economia brasileira.

O estudo, assinado pelo economista Bráulio Borges, comparou os níveis de desmatamento do período 2019–2022 com os observados entre 2023 e 2026. A análise já incorpora os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados na sexta-feira (16), que apontaram queda de 41,8% no desmatamento da Amazônia e 23,8% no Cerrado no intervalo de agosto de 2025 a julho de 2026.

Segundo o Inpe, a área desmatada na Amazônia ficou em 3.335 km², a menor desde 1998. No Cerrado, os 5.516,69 km² representam a menor extensão desde 2001. O levantamento do pesquisador revela que, de 2019 a 2022, o total desmatado nos dois biomas chegou a 78,9 mil km², enquanto de 2023 a 2026 somou 56,7 mil km². A diferença — cerca de 22,3 mil km² (sendo 21 mil km² na Amazônia e 1,4 mil km² no Cerrado) — equivale a uma área um pouco maior que o estado de Sergipe (21,9 mil km²).

Para estimar emissões evitadas e valores econômicos associados, o autor usou modelos de gases de efeito estufa (GEE) e o conceito de Custo Social do Carbono (CSC). Os cálculos apontaram que a redução do desmatamento evitou cerca de 1,49 bilhão de toneladas de emissões de GEE no período 2023–2026. O estudo adotou uma média ponderada de CSC de US$ 145 por tonelada de CO₂ no cenário central.

Com esses parâmetros, o pesquisador estimou três cenários de valor econômico dos danos climáticos evitados: o cenário central resultou em R$ 1,16 trilhão; uma estimativa conservadora apontou R$ 621 bilhões; e o cenário mais otimista chegou a R$ 9,8 trilhões. Convertido para ganhos diretos ao Brasil, o estudo projeta entre R$ 67 bilhões e R$ 192 bilhões.

“Em ambos os casos, trata-se de um benefício que se materializa majoritariamente sob a forma de danos evitados, menos perdas de safras, menor estresse térmico sobre a produtividade do trabalho, menos eventos extremos, entre outros.”

— Bráulio Borges, economista do Ibre.

O trabalho também destaca efeitos regionais que não foram integralmente incorporados às estimativas monetárias, como a influência do desmatamento da Amazônia sobre o regime de chuvas e a disponibilidade de água no território brasileiro. O estudo retoma a noção dos chamados “rios voadores” — correntes de umidade alimentadas pela evapotranspiração da floresta que deslocam vapor d’água para o Centro‑Oeste, Sudeste e Sul.

“Valorizando essa água pelo preço da água utilizada para irrigação na agricultura, os autores estimam que a chuva gerada pela Amazônia brasileira vale cerca de US$ 20 bilhões por ano, ou aproximadamente US$ 60 por hectare de floresta ao ano.”

— Bráulio Borges, economista do Ibre.

O estudo ressalta que esse benefício hídrico é contínuo enquanto a floresta permanecer em pé e que muitos ganhos não entram na conta final: geração hidrelétrica, navegação fluvial, redução de incêndios, biodiversidade e abastecimento urbano. Em relação à relação entre redução do desmatamento e produção agropecuária, o autor observa a compatibilidade entre conservar florestas e expandir a produção.

“A redução dos desmatamentos não é incompatível com a expansão da produção agropecuária, até porque, o próprio agronegócio é um dos principais beneficiários da chuva gerada pela floresta.”

— Bráulio Borges, economista do Ibre.

Por fim, o estudo avalia mecanismos de remuneração da conservação, como o Fundo Amazônia, o mercado de créditos de carbono e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado pelo Brasil na COP30, em Belém, no ano passado. O autor conclui que esses instrumentos caminham para monetizar a floresta em pé, mas que os valores envolvidos ainda são uma fração muito pequena.

O trabalho de comparação com o período 2019–2022 traz continuidade a um levantamento anterior do mesmo autor, publicado há cerca de quatro anos, que estimou prejuízos da ordem de R$ 1,22 trilhão causados pelo aumento do desmatamento e das emissões naquele intervalo.

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