Na reta final para o segundo turno, os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mostram abordagens diferentes sobre meio ambiente e clima, com prioridades distintas para conservação, adaptação e uso econômico dos recursos naturais.
O plano do candidato do PT trata as mudanças climáticas como emergência e dedica ampla parte das propostas a ações de mitigação e adaptação. O termo “mudanças climáticas” aparece 38 vezes no documento e orienta medidas internas — como obras de infraestrutura resiliente, geração de renda para quem protege florestas e mananciais, e ampliação de instrumentos financeiros para custos causados pela emergência — além de políticas externas contra o aquecimento global, combate ao desmatamento e valorização de conhecimentos e tradições de povos e comunidades.
Entre as ações previstas para o próximo mandato estão a estruturação de projetos regionais, aumento da eficiência dos investimentos públicos e ampliação de instrumentos de financiamento. Em mitigação, o plano cita a revitalização de bacias hidrográficas e a ampliação da infraestrutura de segurança hídrica, investimento em prevenção e redução de riscos de desastres e a inclusão da Caatinga como ativo estratégico para mitigar emissões e combater a desertificação. Na área urbana, propõe adaptação com obras de contenção de encostas, drenagem urbana sustentável, fomento à infraestrutura verde e proteção de mananciais, além de apoio a inovações na gestão de resíduos sólidos.
O programa de Lula reafirma a meta de desmatamento zero até 2030 e descreve medidas para implementar planos de controle e prevenção do desmatamento, manejo integrado do fogo e valorização de parques nacionais por meio de turismo sustentável, desenvolvimento regional e educação ambiental. Também prevê incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), aprimoramento dos programas de pagamento por serviços ambientais como complemento à restauração florestal e o fortalecimento do Código Florestal e da Lei da Mata Atlântica. O plano inclui ainda participação do Brasil na construção de um mapa de caminho para eliminação global do desmatamento.
O programa de Flávio Bolsonaro aborda o tema de forma mais enxuta, mencionando eventos climáticos extremos de forma pontual e tratando o meio ambiente como ativo estratégico para geração de oportunidades econômicas. O documento aposta em mercado regulado de carbono, bioeconomia e pagamento por serviços ambientais como fontes de renda, sem desenvolver extensamente medidas de adaptação às mudanças climáticas.
Na infraestrutura hídrica, o plano do candidato do PL prevê sistemas de prevenção a eventos climáticos extremos, barragens de usos múltiplos, reservatórios de controle de cheias, canais, obras de drenagem e fortalecimento do monitoramento, alerta e resposta da Defesa Civil. Para o desmatamento, propõe zerar o desmatamento ilegal até 2029 com combate a queimadas ilegais, reforço na prevenção, monitoramento, fiscalização e repressão aos crimes ambientais.
O programa de Flávio também aponta para a transformação da Floresta Amazônica preservada em fonte de riqueza por meio de biotecnologia, fármacos, cosméticos e outros produtos derivados da biodiversidade, além de manejo sustentável e agregação de valor. O documento defende combater o crime e oferecer alternativas de desenvolvimento às populações locais, e propõe eliminar “superposições” entre órgãos ambientais — como Ibama, Funai e ICMBio — sem detalhar quais são essas sobreposições. Está prevista ainda a consolidação do Cadastro Ambiental Rural e a ampliação do pagamento por serviços ambientais como reconhecimento do produtor que preserva e recupera áreas.
Sobre povos e comunidades tradicionais, o plano do PT prevê avanço na destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas e reforço da regularização fundiária. As propostas dos dois candidatos traçam caminhos distintos para conciliar conservação, desenvolvimento econômico e segurança jurídica; a diferença de ênfase entre emergência climática e uso econômico da natureza será ponto central do debate público e das prioridades do próximo governo.
